Categoria Doping

“A FINA, como confederação internacional, é política sim, e está suscetível à opinião de atletas internacionais renomados em suas decisões”.

Publicado em 20/07/2011, aqui

dsc01526

“A FINA, como confederação internacional, é política sim, e está suscetível à opinião de atletas internacionais renomados em suas decisões”.

Rogério Romero, ex-atleta de peso da natação brasileira, e atual secretário adjunto de esportes de Minas Gerais, comenta a pressão de nomes internacionais para forçar decisões com relação à punição de Cielo e dos atletas brasileiros Nicholas Santos, Henrique Barbosa e Vinícius Waked.

Rosaly Bastos, entrevista exclusiva

César Cielo se move rapidamente na piscina, mas, no momento, sofre uma tempestade internacional. A acusação de dopping por Furosemida,anunciada há poucos dias, põe em cheque não só um grande nome da natação, mas todo seu compromisso e carreira no esporte, bem como a trajetória bem-sucedida dos outros 3 atletas envolvidos no caso – Nicholas Santos, Henrique Barbosa e Vinícius Waked. Ingestão acidental e uma brecha aberta para uma possível contaminação pela substância proibida, sinalizada pela farmácia responsável pela manipulação dos suplementos para o atleta. Waked é considerado reincidente, devido à acusação de dopping em 2010, que ele deveu a um medicamento para dor de cabeça.

Forte por impacto, a palavra “dopping” gera reações de tamanhos desproporcionais, e colocou Cielo e seus companheiros no olho do furacão. Antes, venerado pela opinião pública e pela mídia, da noite para o dia Cielo passou a ser visto como culpado, metralhado por opiniões das mais diversas, negativas, em sua maioria, sem que se fizesse a correta separação entre ingestão acidental, proposital, ou por negligência. Reação rápida do público, e mais rápida ainda grande parte de nadadores, profissionais ou amadores, usando a palavra dopping com sentido de punição pesada.

Às vésperas do Mundial de Esportes Aquáticos de Xangai, a FINA, Federação Internacional de Natação, alegando neutralidade, passou o caso para o TAS, tribunal supremo que decidirá o caso, mas já com um pré-julgamento adiantado: pediu punição para os atletas, e, não só uma concordância com a advertência da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), que chegou a ser criticada como passiva e conivente em relação ao assunto.

Rogério Romero, ex-atleta e nome forte da história da natação brasileira, presença marcante em vários jogos olímpicos, hoje secretário adjunto de esportes de Minas Gerais, conhece bem de perto todas as provações passadas pelos integrantes do esporte.

Com experiência de medalhista reconhecido, ele critica a posição da FINA com um pré-julgamento adiantado mencionando culpabilidade sem se ater a determinadas regras, e afirma que não há total imparcialidade no caso do julgamento de atletas de renome como César Cielo. “A FINA, como organismo internacional, é órgão político sim, e sofre pressões de grandes atletas de nomes internacionais, quanto às decisões tomadas. Uma palavra ou reclamação de alguém com a força de Michael Phelps, Alain Bernard, por exemplo, vão, sim, ter grande voz na opinião da FINA sobre o caso.”

Na época da indecisão sobre o fim dos maiôs tecnológicos, a mídia internacional veiculou a notícia de que Phelps bateu o pé e disse que não competiria mais se os trajes não fossem abolidos. Ele estava treinando com um traje de outra marca patrocinadora, e sentindo-se desfavorecido por usar modelo de tecnologia inferior ao de alguns maiôs da marca Arena, por exemplo, marca usada por atletas como Cielo,  na época (a Arena patrocina o brasileiro), resolveu aumentar o tom de voz. Logo em seguida, decisão do fim dos maiôs foi acatada pela FINA.
Romero reconhece que o tribunal responsável pelo julgamento, o TAS, assume casos para agir com maior neutralidade, mas que uma palavra de um nadador internacional indignado, por exemplo, chega com grande impacto às vontades da FINA que, por sua vez, transmite a pressão.

“Existem regras para cada tipo de caso. Um atleta que faz ingestão proposital, tem que saber que aquilo não está certo, e precisa ser punido. Mas é preciso avaliar cada caso, de acordo com as regras que esses organismos mesmos estabeleceram, e, não, passar por cima delas”, para dar uma resposta forte e de autoridade, ou reflexo de pressões externas de grandes nomes que querem punições, talvez movidos por ciúmes, como ele ressalta que sempre existiu e sempre vai existir no meio. “Ingestão acidental deve ser encarada como acidental e julgada como tal, assim como as de negligência, como negligência”, completa.

Para ele, grandes nomes não devem ser isentos de responsabilidade, mas ressalta que o caso de Cielo é atípico e deve ser tratado como atípico. No seu ponto de vista, não foi negligência, nem parece ser proposital, e, se o nadador apresentou provas de que comprava suplementos manipulados há anos da mesma farmácia, e o dr. Eduardo de Rose, autoridade respeitada, emitiu um boletim com argumentos sólidos, a posição dele deve ser tratada com respeito. O que está previsto pelas próprias regras da FINA. “Eles (FINA, TAS) precisam analisar de acordo com as regras diferenciadas que eles mesmos criaram, respeitar o que eles mesmos estabeleceram, para tratar cada caso com distinção, e, não, a partir da explosão do nome forte de dopping, generalizando”, alfineta.

“Como César Cielo virou um ícone, chegou no topo, todos querem ganhar dele. Ele virou uma vidraça, e isso atrai tanto elogios, quanto ciúmes. Ciúmes entre atletas (ri), claro, sempre existiu. Ele deve estar preparado para tudo isso, para as pressões, e também para quem duvida”, arremata.

A FINA foi procurada mas não atendeu à reportagem até o fechamento desta matéria. O TAS emitiu nota dizendo que não vai se pronunciar a respeito do caso, até decisão final, que se dará até o dia 24 deste mês.
Tribunal e federação, vulneráveis ou não, muito vai poder se dizer sobre a decisão final do TAS, e das pressões que a FINA sofre e respeita, em relação a gritos de nomes fortes, desafetos, parcialidades ou isenção e confiabilidade em julgamentos de casos tão delicados no esporte mundial. (Rosaly Bastos – Brazil Special Report)(Foto: Divulgação/Secretaria de Esportes de Minas Gerais)

READ IN ENGLISH:

“FINA, the international swimming confederation, as it is rather political, and is susceptible to the opinions of renowned international athletes in their decisions.” Interview with former brazilian swimmer Rogerio Romero, on the trial of the case of doping of Cesar Cielo and three other brazilian swimmers.

Rogerio Romero, current Assistant Secretary of Sports of  the state of Minas Gerais, in Brazil, speaks about the pressure of  sports international names to push decisions regarding the punishment of Cesar Cielo plus Nicholas Santos, Henrique Barbosa and Vinicius Waked, about their dopping issue, and discuss FINA’s and CAS partiality or impartiality.

Rosaly Bastos, exclusive interview

Cesar Cielo moves quickly in the pool, but at present, suffers an international storm. The accusation of doping by furosemide, announced a few days ago, puts into question not only a big name in swimming, but all their commitment and career in the sport, as well as the successful trajectory of other three athletes involved in the case – Nicholas Santos Henrique Barbosa and Vinicius Waked. Accidental ingestion and a loophole open for possible contamination by a prohibited substance, signaled by the pharmacy responsible for the manipulation of supplements for the athletes. Waked is considered a repeat offender on charges of doping in 2010, he was due to a medication for headaches, and he will be judge probably in a different way of the other 3, according to FINA´s rules for dopping issues.

Strong impact of the word “doping” generates explosive reactions, and it puts Cielo and his companions in the eye of the hurricane, not only by media, but also by public judgments and by other athletes, swimmers or not. Before, revered by the public and the media, the overnight Cielo was seen as guilty, strafed by a variety of opinions, negative, mostly to be done without the proper separation of accidental ingestion, deliberate, or negligence. Fast reaction of the public, and still much faster from swimmers, professional or amateur, using the word doping with a sense of punishment.

On the eve of World Aquatics Sports in Shanghai, FINA (starting on july 24th, the swimming competitions), the International Swimming Federation, claiming neutrality, has passed the case to TAS, the supreme court that will judge Cielo´s dopping issue, but it was followed already with a FINA´s pre-trial early: FINA has asked for a heavier punishment for the 4 athletes, contrary to the warning given by the CBDA (Brazilian Aquatics Sports Confederation), which only annulled the results obtained by the athletes at the Maria Lenk Trophy in May, which came to be criticized as passive and complicit in the matter.
Rogerio Romero, a former athlete and strong name in the brazilian swimming history, strong presence in several Olympic Games, now Assistant Secretary of Sports of the state of Minas Gerais, knows very closely all the trials passed by the members of the sport.

With recognized experience, he criticizes the position of FINA with an early pre-trial guilty without mentioning adhere to certain rules, and says there is no impartiality at all in the case of the trial of prominent athletes as Cesar Cielo. “FINA, as an international organization, political body, is, yes, under pressure from international big athletes names in issues like this, speaking about the decisions taken. A word or complaint from someone with the strength of Michael Phelps name, or Alain Bernard, for example, will have a louder voice in FINA´s opinions, that will be certainly be heard with a strong ears when it gets to CAS”, says Romero.

At the time of indecision on the technological end of the swimsuits, the international media published the news that Phelps has made many demands, and said he would not compete anymore if the tech costumes were not abolished. He was training with a suit from other brand sponsor, and feeling disadvantaged by using inferior technology to model like some swimwear made by brand Arena, for example, brand that was using better technologies than his swimsuits, as the ones used by athletes such as Cielo, at the time (the Arena sponsors the Brazilian). So, unsatisfied, Phelps has decided to increase the tone of his voice. Soon after, the end of swimsuits decision was accepted by FINA.

Romero recognizes that the court responsible for the trial, CAS-TAS, takes cases to act with greater neutrality, but a word of an outraged international swimmer, for example, and other strong external voices and opinions in sports world (or others that these organizations know well) comes with great impact to the will of FINA, which in turn transmits the pressure.

“There are rules for each type of case. A player who makes deliberate ingestion, must know that it is not right and must be punished. But we must evaluate each case according to the rules that agencies have set up, and do not go over them, to give a strong response showing a kind of authority, or reflection of external pressures of big names who want punishment”, perhaps driven by jealousy, as he points out that always was and always will exist in the middle. “Accidental ingestion should be regarded as accidental and judged as such, as well as neglect, as neglect,” he added.

For him, big names in sports should not be exempted from responsibility, but emphasizes that the case of Cielo is atypical and should be treated as unusual. In his view, Cielo was not negligent, nor seems to be purposeful, and if the swimmer presented evidence that the supplements he bought handled the same pharmacy for years, and dr. Eduardo de Rose, respected authority working for the dopping analysis in Brazil, issued a bulletin with solid arguments, his position should be treated with respect. What is referred to by their own rules of FINA. “They (FINA, TAS) need to analyze according to different rules of their own making, respect what they have set up to treat each case with distinction, and not from the explosion of the strong name of doping, generalizing”, he emphasizes.

“As Cesar Cielo has become an icon, reached the top, everyone wants to beat him. He turned himself into a window, and it draws both praise, and jealousy. Jealousy among athletes (laughes), of course, exists and always existed. He must be prepared for all this kind of pressures, and also for those who have doubts”, he concludes.

TAS has issued a statement saying they will not speak about the case until their final decision, which will take place until the 24th of this month.
Court and federation, vulnerable or not, much will be able to say about the final decision of the CAS-TAS, and the pressures that FINA suffers and respects, in relation to cries of strong international athletes’ names, not amicable relations, jealously, or impartiality and reliability of judgments in such delicate cases like this in the world of sports. (Rosaly Bastos – Brazil Special Report) (Photo: Sports Secretariat of Minas Gerais)

Leia o texto completo

Doping: dois anos para Nikita

Só pelo nome já dá para imaginar a origem do cidadão. Nikita Maksimov, 17, caiu por esteroide anabolizante. O nome da bomba é Dehydrochlormethyltestosterona, ou simplesmente Turinabol, substância desenvolvida pelos alemães na década de 60!

Ele é novo, quem sabe aprende? A Rússia é que parece não estar aprendendo: já é o quinto caso em poucos meses.

nikita_doping

Cai Nikita, cai.

 

 

Leia o texto completo

Campeão Mundial cai no doping

Mads Glaesner, dinamarquês que conquistou o ouro nos 1500m livre no mundial de curta em Istambul, último dezembro, perdeu esta e outro bronze do mesmo campeonato (nos 400m livre).

A FINA deu a menor sanção possível (3 meses), mas retificou os resultados do Mundial.

Mads Glaesner, Gregorio Paltrinieri, Pal Joensen

O italiano sobe para primeiro e o… bem, das Ilhas Faroé, para 2o. (coincidência que é território autônomo do país de Glaesner?).

Além dele, a polonesa Paula Zukowska também teve sua punição este semana, mas por um ano. Ambos foram pegos com estimulantes, algo que se tornou comum por ser encontrado em descongestionantes nasais (bem como em suplementos).

 

 

Leia o texto completo

Rogério Romero diz Não ao Doping

Natação & Doping

Um exemplo de caráter: consciente de que sabia que existia mas que o sucesso deve ser alcançado por meios corretos, nunca ilícitos.

Leia o texto completo

Cinco olimpíadas e o objetivo de ser feliz

Publicado em Memória Olímpica
12/04/2012

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“A natação brasileira tem evoluído muito, mas, por outro lado, houve uma decadência dos clubes que investiam nesses atletas. Hoje, menos clubes disputam os campeonatos regionais, estaduais e até nacionais. Além disso, o esporte ficou muito caro.”

Em 30 anos dedicados à natação, o paranaense Rogério Romero tornou-se o primeiro nadador no mundo a participar de cinco edições dos Jogos Olímpicos, de 1988 a 2004. Em quatro delas (Seul 1988, Barcelona 1992, Atlanta 1996 e Sydney 2000), foi finalista olímpico. Trata-se do único nadador brasileiro a conseguir este feito.

Detentor de 29 recordes sul-americanos e 41 brasileiros, bicampeão pan-americano, 15 vezes campeão dos 200m costas no Troféu Brasil de Natação e 10 vezes campeão sul-americano na mesma modalidade, Romero compartilha um pouco de sua história com o Memória Olímpica nesta entrevista. Secretário adjunto da Secretaria de Esportes e da Juventude do Estado de Minas Gerais, casado com a ex-nadadora Patricia Comini da Silva Romero, ele diz que, além do desafio de desenvolver políticas públicas para o esporte, só tem como objetivo o de ser feliz.

Memória Olímpica: Você começou a praticar esporte muito cedo. Começou mesmo pela natação ou por outras modalidades?

Rogério Romero: Comecei realmente muito cedo, com cinco para seis anos. Meus três irmãos mais velhos já nadavam, então acabei seguindo um pouco a carreira deles. Naquela época, houve um incentivo maior dos meus pais, mas, ao fim, acabei gostando muito e me apaixonando pela natação, mas praticava outros esportes, sim. Na escola ou com os amigos… nada muito sério ou profissional. Comecei minha carreira na Associação Cultural Esportiva de Londrina (Paraná), onde fiquei até 1985. Depois, fui para Curitiba, onde fiquei até 1990 no Clube do Golfinho. Na minha primeira olimpíada, em 1988, em Seul (Coreia do Sul), ainda estava no Clube do Golfinho. Depois, vim para Belo Horizonte, para o Minas Tênis Clube, e participei das olimpíadas de 1992 em Barcelona. O esporte sempre esteve muito presente na minha vida.

MO: Depois de de dois Jogos Olímpicos, como ficou sua força de vontade para participar de outras competições?

RR: Quando participei dos Jogos de 1992, pra mim já tinham acabado os ciclos olímpicos. Naquela época, começava-se cedo e acabava-se cedo também. Então, na minha cabeça, já tinha dado minha carreira por encerrada. Meu técnico conversou comigo e resolvi ficar mais um pouco. Esse pouco se prolongou por mais um ciclo olímpico que me levou, em 1996, a Atlanta… como meu desempenho não foi muito interessante nessa Olimpíada, pensei que não haveria mais o que fazer. Acreditava que já tinha alcançado meu ápice e não queria acabar mal. Nesse ano, foi feita até uma despedida, mas depois disso consegui um índice para um campeonato mundial, resolvi participar e isso me deu um estímulo a mais e acabei tendo um horizonte muito mais próspero, podendo participar de cinco olimpíadas.

MO: Como você começou muito cedo, poderia dar uma opinião sobre a importância do esporte na vida de uma criança?

RR: O esporte pode sim fazer muita coisa na vida de uma criança, mas não faz nada sozinho. Precisa ser bem administrado e encaminhado. Além disso, é uma alavanca de valores, ensina muitas questões relacionadas com competição, dedicação, responsabilidade e companheirismo. Mesmo em um esporte individual como a natação, o atleta não faz nada sozinho, o resultado não é só do atleta, é de toda uma equipe que o acompanha. Então, digo que o esporte fez a diferença na minha vida, sim, e pode fazer na vida de todos. Todo esse arcabouço de aprendizagem eu tenho levado para minha vida profissional e pessoal. A natação me deu tudo, até minha esposa (risos)… como ela também é ex-nadadora, compartilha valores iguais aos meus. Além disso, a natação me deu um leque de oportunidades. Só estou hoje na Secretaria de Esporte e Juventude de Minas Gerais graças à visibilidade que tive como atleta. Como no esporte sempre se tem alguma coisa a aprender, o atleta acaba transpondo essa vontade de aprender para outros aspectos de sua vida. Além disso, a vida é uma competição constante e nem sempre você é o primeiro. Por isso, acho que o esporte consegue te dar uma visão clara de que com dedicação você pode sim alcançar todos os seus objetivos, além de ter um senso de justiça muito grande.

MO: Como você tem essa consciência social do esporte, como vê o papel do atleta na sociedade?

RR: O atleta que tem destaque e visibilidade tem que ter a consciência de que, na sociedade, as pessoas estão olhando para ele. Estão se espelhando para o bem e para o mal, a partir da imagem do atleta… esse é um ponto muito importante: entender que o sucesso nas quadras ou nas pistas traz consigo uma responsabilidade muito grande. O atleta não existe só dentro de quadra, ele é uma pessoa que, a qualquer momento de sua vida, pode estar sendo visto e observado e servindo de exemplo. O papel do atleta é o de referência para os jovens, principalmente. O atleta precisa encarar o esporte como algo vital para a sociedade. Na época do Guga, por exemplo, ele foi um espelho em que os jovens se inspiraram e houve uma grande procura pelo tênis. Espero, então, que os atletas, a partir, principalmente, de 2016, também proporcionem um boom de investimentos no país, para estimular não só o esporte de competição, mas principalmente o esporte por prazer.

MO: Nesse sentido, como você encara o apoio e o patrocínio ao esporte no Brasil?

RR: O patrocínio é o lado mercadológico do esporte. Essa questão do patrocinador ser um cara bonzinho que quer ajudar não é verdade. O patrocinador está sempre pensando no que é bom para ele, na captação de um cliente, na imagem da empresa que é socialmente responsável. A gente tem que esclarecer isso: ninguém é “bonzinho” porque está patrocinando um atleta, estão também olhando pelo lado da empresa. Devemos lembrar, porém, que o desenvolvimento do esporte precisa de dinheiro assim como qualquer outra área, dessa forma um patrocinador é bem vindo desde que tenha alguns limites e respeite os limites dos atletas. As exigências não podem ser extrapoladas. Não pode haver uma exigência, por exemplo, de que o atleta vire um garoto propaganda. As figuras precisam ser respeitadas. Se a pessoa esta sendo patrocinada para ser um atleta, tem que ser respeitado o que é prioritário. Ou seja, sua carreira esportiva e seu plano de treinamento.

MO: Você acha que no Brasil isso é respeitado e é feito profissionalmente?

RR: Existem os dois lados. Às vezes, existe um abuso tanto da parte do patrocinador quanto da parte do atleta. Às vezes um atleta acha que o patrocinador esta fazendo uma caridade e não é isso. Essa compreensão tem que existir. Claro que ainda temos muito a caminhar, existe um longo caminho para uma profissionalização maior dessa lógica do patrocínio… é preciso ter mais parâmetros. Existe muito dinheiro envolvido, mas isso por si só não vai acarretar em uma profissionalização sem que cada um saiba exatamente seu papel nesse sistema. Talvez falte um pouco de transparência em tudo isso e a falta de informação é um pouco danosa. Mas em geral, acho que o respeito acontece sim no país.

MO: Você se tornou o único nadador brasileiro a participar de cinco edições dos Jogos Olímpicos. Qual é o impulso que isso dá à carreira de um atleta? Pode também contar como é a experiência de participar dos jogos e se há muita diferença entre as edições?

RR: Entendo que a olimpíada é o ápice para os atletas na maior parte das modalidades esportivas. A própria participação já traz uma aura de vencedor, independente de medalhas e resultado, porque se trata de um evento que acontece a cada quatro anos. Há toda uma preparação e expectativa em torno disso. Não é algo corriqueiro. O atleta tem que estar bem na hora certa e no momento certo. Além disso, a experiência olímpica é fascinante e cada edição, cada sede, tem um fascínio diferente, uma particularidade própria do momento, da cidade, do país, do desempenho… tudo isso contribui muito para as lembranças. O atleta poder participar de uma olimpíada é muito bacana, mas ele tem que ter consciência do que é a cobrança. Cada um encara de uma maneira, mas é importante entender que o fato de não levar uma medalha não quer dizer que o atleta seja um perdedor. O atleta precisa entender essa filosofia. Do contrário, vai se desgastar muito. Tem que saber aproveitar o momento, mas sabendo qual é o objetivo, e treinar muito para participar da melhor forma possível e se preparar bem. Saber que o atleta deu o seu melhor e que o resultado foi justo proporciona um grande conforto e confiança. Vale à pena dar tudo de si, pois as olimpíadas representam a maior competição para um atleta

MO: Você também foi Campeão Pan-Americano em Havana 1991 e Santo Domingo 2003. Qual a importância dessas vitórias em sua carreira? E qual a maior diferença entre participar de uma olimpíada e vencer um Pan?

RR: O Pan para o Brasil é muito bom, pois consegue dar ao atleta a perspectiva de chegar entre os primeiros. Para a natação, são duas competições muito distintas. Nos jogos olímpicos existem mais de uma centena de países competindo e a disputa acaba sendo muito mais pulverizada, ao contrário do Pan, em que podemos ver algo muito canalizado, especialmente pelos americanos, que têm um potencial sempre muito grande. Além disso, atletas de outros países também treinam ou já treinaram nos Estados Unidos. Então, temos que ver esse cenário também, de supremacia americana. Mas dizer que ganhar o Pan-Americano é mais especial do que participar de uma olimpíada eu não posso. Diria que é diferente. A sensação de subir em um pódio e ouvir o Hino Nacional é sublime, não dá para falar que não, e não tive a oportunidade de sentir isso em uma olimpíada. Mesmo assim, pude vibrar muito quando outros brasileiros subiram do pódio. São, então, experiências bem diferentes, não tem como comparar. São muito distintas e muito especiais.

MO: A que você atribui ter conquistado tantas vitórias em sua carreira? Quem foi sua maior inspiração e incentivo?

RR: Fonte de incentivo sem dúvida foi minha mãe. A Dona Odete ia a todos os lugares. Sempre ali do meu lado, quando fui campeão Pan-Americano pela primeira vez e em todos os outros momentos, ela foi a grande incentivadora. Não só ela, mas toda a minha família. O núcleo familiar é muito importante na carreira de um atleta, a família é um porto seguro que está sempre apoiando independente do resultado. Para o atleta, ter esse apoio, principalmente nos momentos difíceis, é extremamente importante. E inspiração… foram diversas. Principalmente, a do grande nome da natação que foi o Ricardo Prado, nunca escondi de ninguém. Ele me mostrou que o empenho pode gerar resultados muito positivos. Pra mim, ele foi a referência no início. E além disso, me inspiro em todo e qualquer grande atleta que luta com talento e dignidade, pois cada um a sua maneira tem alguma coisa que o faz o melhor do mundo e buscar referências de atletas que têm atitudes certas é muito positivo. O Oscar (Schmidt), por exemplo, ficava depois dos treinos praticando seu lance livre e isso fazia a diferença. Busco sempre acompanhar isso tudo para me inspirar.

MO: Você foi 15 vezes campeão dos 200m costas no Troféu Brasil de Natação. Como você avalia o cenário brasileiro de competições de natação?

RR: Hoje, o cenário é fortíssimo. Fico impressionado com tantos nomes que estão surgindo das mais diversas regiões do Brasil e nos mais diversos estilos. São nadadores de alto nível como César Cielo e o Tiago Pereira, que estão entre os dez melhores das suas provas no ranking mundial. A natação brasileira tem evoluído muito. A competição esta muito forte e o nível esta se elevando muito. Mas, por outro lado, devemos salientar também que houve sim uma decadência dos clubes que investiam nesses atletas. Hoje, menos clubes disputam os campeonatos regionais, estaduais e até nacionais, essa é uma grande preocupação. Acredito que não há o interesse que havia anteriormente e, além disso, o esporte ficou muito caro. Nesse sentido, não vejo tanta sustentabilidade no cenário brasileiro. O poder público deveria sim dar um auxílio, mas isso tem que ser feito em conjunto com a família, com os próprios atletas e com toda a comunidade.

MO: Quais os objetivos que você traça no atual estágio da sua carreira? E quais são seus planos futuros?

RR: Um dos principais objetivos é tentar, dentro do contexto político, implementar algumas coisas que são muito importantes para o esporte, buscar meus objetos dentro de toda essa realidade política que nós conhecemos, na qual há muita restrição orçamentária, procurando sempre adequar essa realidade às necessidades. Mas o maior objetivo mesmo é continuar construindo minha família. Agora, com as minhas duas filhas, quero fazer uma família saudável que se respeite, incentivar o esporte e dar todo o apoio de que precisarem. Caso elas queiram fazer carreira na natação, ótimo, mas elas é que irão decidir o futuro. No fim, meu grande objetivo é ser feliz.

MO: Como você avalia o problema do doping nos esportes e que mensagem você deixaria para os jovens atletas?

RR: Doping é algo que vai estar sempre junto com as competições esportivas. Infelizmente, isso é uma guerra sem fim e o combate a isto precisa continuar, sem dúvida nenhuma.  A responsabilidade quanto ao doping deve ser não só do atleta, mas de toda a equipe. Ou seja, do treinador, do médico e de toda a equipe multidisciplinar que esteja envolvida com o desempenho do atleta. Esse cuidado deve ser tomado de forma mais responsável e cada vez mais veemente. Acredito que, quanto mais o atleta vai progredindo, mais neurótico, de certa forma, ele precisa ficar, pois o doping ronda e o atleta tem que estar sempre alerta para cuidar de sua saúde. E, claro, não vale à pena destruir tanto a saúde e a carreira, ter o nome exposto e ligado a algo tão ruim por conta de uma glória momentânea.

Leia o texto completo

Sai prá lá, Lance!

Depois de enganar inúmeros fãs (não chego a entrar nesta categoria, talvez admirador) por vários anos, o ciclista-mentiroso-mor Lance Armstrong queria levar uma vida normal sendo… nadador master. Inscreveu-se numa competição, mas o mundo aquático soube e começou a se rebelar. Ele já havia nadado anteriormente:

O pior de tudo é que a Federação Americana de Natação Master não achava nada de errado, dizendo que sua intenção era promover a saúde entre adultos, etc, etc. Mas a Federação Internacional de Natação fez valer seu regulamento e enviou uma carta para os americanos dizendo para não aceitar a inscrição do pseudo-atleta. Armstrong, vendo onde ia parar, pediu para sair.

Aqui não, fraude esportiva. Ponto para a FINA.

 

Leia o texto completo

O Doping em pauta

Aqueles que me conhecem/seguem já perceberam que tenho um pequeno fascínio pelo tema doping. Considerando o fato que os próximos Jogos Olímpicos serão aqui, fico ainda mais preocupado. Por isso temos que valorizar as últimas iniciativas:

ladetec_-_predio_da_direita_bloco_c_3.jpg

Obras iniciadas Previsão de 7 mil exames nos Jogos de 2016.

 

  1. A CBDA publicou esta semana sua nova versão do manual com informações atualizadas sobre doping. Pode ser encontrado aqui;
  2. A WADA alertou sobre uma substância que está sendo vendida pela Internet, ou seja, agiu preventivamente;
  3. O novo prédio do Ladetec, único laboratório credenciado para exames no Brasil, teve início.

Vamos torcer para que toda semana tenhamos notícias como esta.

Leia o texto completo

Atualizado: a coisa tá russa: três suspensões

Fui acreditar nas agências de notícia… Mas vendo um tweet da SwimNews (aqui com o renomado Craig Lord, agora não tem erro), percebi que o número correto eram 3 russas nos últimos dias. Yekaterina Andreyeva, prata nas primeiras Olimpíadas da Juventude, também testou positivo pelo mesmo estimulante. Deve ser apenas uma incrível coincidência…

Além delas, Dariya Ustinova, 14 aninhos, recebeu uma advertência. A agência corre atrás dos responsáveis pelo programa.

A Rusada (assim que se chama a agência antidopagem da Rússia) anunciou nesta semana duas suspensões: Ksenia Moskvina e, hoje, Natalia Lovtsova.

A primeira é recordista européia dos 100m costas, enquanto a segunda participou do revezamento 4x100m livre em Londres.

2013-03-14T184755Z_1_CBRE92D1G8300_RTROPTP_2_SWIMMING

Moskvina: palmas para a Rusada.

 

Leia o texto completo

Sexta eliminatória: brasileiros, rápidos e furiosos

O dia começou rápido, com os 50m livre. Os brasileiros conseguiram passar com certa tranquilidade para a semi. Cesar Cielo e Bruno Fratus estão com o 2o e 3o melhores tempos. Bovell, que já foi medalhista na prova de Thiago, os 200m medley, está em primeiro. Depois, por problemas de joelho, acabou optando pelas provas de livre, onde teve um destaque. O ápice deste nadador que deu a primeira medalha da natação para Trinidad Tobago pode vir com outra medalha.

Bovell: o mais rápido, nas eliminatórias… (Reuters)

Ouro em 2000, Anthony Ervin é o mais jovem medalhista na prova que teve sua estreia olímpica em 1988 e agora pode escrever seu nome nas estatísticas como o mais velho e também o maior hiato entre ouros. Numa prova em que temos 9 medalhistas olímpicos entre os 16 semifinalistas, sendo 3 desta prova (o outro é Schoemann), o favoritismo existe para Cielo, mas os detalhes é que vão determinar quem passa para amanhã ou não.

Infográfico: Entenda como funciona a prova dos 50 m nado livre

A polêmica chegada de Pequim.

Nos 100m borboleta, reencontro entre o sérvio Cavic e o multi-medalhista quebrador de recordes, ainda favorito e em busca do inédito tri, Phelps, depois da prova que deu a vitória ao americana por um centésimo em 2008. Ambos passaram, como esperado, para tarde.

Chad le Clos: será que a história será repetida nos 100m? (Gallo)

Quem nadou melhor que o esperado foi Chad le Clos. Embalado pela vitória histórica em cima de Phelps nos 200m borboleta, o sul-africano até saiu da final dos 200m medley (estava em oitavo) para se dedicar à semi da prova que ficou em primeiro pela manhã. E, pela maneira com que nadou (olhando para os lados e controlando sua posição), tornou-se um dos favoritos.

Quem nadou pior que o esperado foi Kaio Márcio, que alegou uma febre alta, provocada provavelmente por algo que ele comeu, e ficou muito aquém de sua marca.

Toda torcida para a primeira prova da tarde, os 50m livre, e a final dos 200m medley com Thiago Pereira.


Este texto foi originalmente publicado no site do iG (colunistas.ig.com.br/rogerioromero

Leia o texto completo