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Clipping Doping recorde

Cinco olimpíadas e o objetivo de ser feliz

Publicado em Memória Olímpica
12/04/2012

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“A natação brasileira tem evoluído muito, mas, por outro lado, houve uma decadência dos clubes que investiam nesses atletas. Hoje, menos clubes disputam os campeonatos regionais, estaduais e até nacionais. Além disso, o esporte ficou muito caro.”

Em 30 anos dedicados à natação, o paranaense Rogério Romero tornou-se o primeiro nadador no mundo a participar de cinco edições dos Jogos Olímpicos, de 1988 a 2004. Em quatro delas (Seul 1988, Barcelona 1992, Atlanta 1996 e Sydney 2000), foi finalista olímpico. Trata-se do único nadador brasileiro a conseguir este feito.

Detentor de 29 recordes sul-americanos e 41 brasileiros, bicampeão pan-americano, 15 vezes campeão dos 200m costas no Troféu Brasil de Natação e 10 vezes campeão sul-americano na mesma modalidade, Romero compartilha um pouco de sua história com o Memória Olímpica nesta entrevista. Secretário adjunto da Secretaria de Esportes e da Juventude do Estado de Minas Gerais, casado com a ex-nadadora Patricia Comini da Silva Romero, ele diz que, além do desafio de desenvolver políticas públicas para o esporte, só tem como objetivo o de ser feliz.

Memória Olímpica: Você começou a praticar esporte muito cedo. Começou mesmo pela natação ou por outras modalidades?

Rogério Romero: Comecei realmente muito cedo, com cinco para seis anos. Meus três irmãos mais velhos já nadavam, então acabei seguindo um pouco a carreira deles. Naquela época, houve um incentivo maior dos meus pais, mas, ao fim, acabei gostando muito e me apaixonando pela natação, mas praticava outros esportes, sim. Na escola ou com os amigos… nada muito sério ou profissional. Comecei minha carreira na Associação Cultural Esportiva de Londrina (Paraná), onde fiquei até 1985. Depois, fui para Curitiba, onde fiquei até 1990 no Clube do Golfinho. Na minha primeira olimpíada, em 1988, em Seul (Coreia do Sul), ainda estava no Clube do Golfinho. Depois, vim para Belo Horizonte, para o Minas Tênis Clube, e participei das olimpíadas de 1992 em Barcelona. O esporte sempre esteve muito presente na minha vida.

MO: Depois de de dois Jogos Olímpicos, como ficou sua força de vontade para participar de outras competições?

RR: Quando participei dos Jogos de 1992, pra mim já tinham acabado os ciclos olímpicos. Naquela época, começava-se cedo e acabava-se cedo também. Então, na minha cabeça, já tinha dado minha carreira por encerrada. Meu técnico conversou comigo e resolvi ficar mais um pouco. Esse pouco se prolongou por mais um ciclo olímpico que me levou, em 1996, a Atlanta… como meu desempenho não foi muito interessante nessa Olimpíada, pensei que não haveria mais o que fazer. Acreditava que já tinha alcançado meu ápice e não queria acabar mal. Nesse ano, foi feita até uma despedida, mas depois disso consegui um índice para um campeonato mundial, resolvi participar e isso me deu um estímulo a mais e acabei tendo um horizonte muito mais próspero, podendo participar de cinco olimpíadas.

MO: Como você começou muito cedo, poderia dar uma opinião sobre a importância do esporte na vida de uma criança?

RR: O esporte pode sim fazer muita coisa na vida de uma criança, mas não faz nada sozinho. Precisa ser bem administrado e encaminhado. Além disso, é uma alavanca de valores, ensina muitas questões relacionadas com competição, dedicação, responsabilidade e companheirismo. Mesmo em um esporte individual como a natação, o atleta não faz nada sozinho, o resultado não é só do atleta, é de toda uma equipe que o acompanha. Então, digo que o esporte fez a diferença na minha vida, sim, e pode fazer na vida de todos. Todo esse arcabouço de aprendizagem eu tenho levado para minha vida profissional e pessoal. A natação me deu tudo, até minha esposa (risos)… como ela também é ex-nadadora, compartilha valores iguais aos meus. Além disso, a natação me deu um leque de oportunidades. Só estou hoje na Secretaria de Esporte e Juventude de Minas Gerais graças à visibilidade que tive como atleta. Como no esporte sempre se tem alguma coisa a aprender, o atleta acaba transpondo essa vontade de aprender para outros aspectos de sua vida. Além disso, a vida é uma competição constante e nem sempre você é o primeiro. Por isso, acho que o esporte consegue te dar uma visão clara de que com dedicação você pode sim alcançar todos os seus objetivos, além de ter um senso de justiça muito grande.

MO: Como você tem essa consciência social do esporte, como vê o papel do atleta na sociedade?

RR: O atleta que tem destaque e visibilidade tem que ter a consciência de que, na sociedade, as pessoas estão olhando para ele. Estão se espelhando para o bem e para o mal, a partir da imagem do atleta… esse é um ponto muito importante: entender que o sucesso nas quadras ou nas pistas traz consigo uma responsabilidade muito grande. O atleta não existe só dentro de quadra, ele é uma pessoa que, a qualquer momento de sua vida, pode estar sendo visto e observado e servindo de exemplo. O papel do atleta é o de referência para os jovens, principalmente. O atleta precisa encarar o esporte como algo vital para a sociedade. Na época do Guga, por exemplo, ele foi um espelho em que os jovens se inspiraram e houve uma grande procura pelo tênis. Espero, então, que os atletas, a partir, principalmente, de 2016, também proporcionem um boom de investimentos no país, para estimular não só o esporte de competição, mas principalmente o esporte por prazer.

MO: Nesse sentido, como você encara o apoio e o patrocínio ao esporte no Brasil?

RR: O patrocínio é o lado mercadológico do esporte. Essa questão do patrocinador ser um cara bonzinho que quer ajudar não é verdade. O patrocinador está sempre pensando no que é bom para ele, na captação de um cliente, na imagem da empresa que é socialmente responsável. A gente tem que esclarecer isso: ninguém é “bonzinho” porque está patrocinando um atleta, estão também olhando pelo lado da empresa. Devemos lembrar, porém, que o desenvolvimento do esporte precisa de dinheiro assim como qualquer outra área, dessa forma um patrocinador é bem vindo desde que tenha alguns limites e respeite os limites dos atletas. As exigências não podem ser extrapoladas. Não pode haver uma exigência, por exemplo, de que o atleta vire um garoto propaganda. As figuras precisam ser respeitadas. Se a pessoa esta sendo patrocinada para ser um atleta, tem que ser respeitado o que é prioritário. Ou seja, sua carreira esportiva e seu plano de treinamento.

MO: Você acha que no Brasil isso é respeitado e é feito profissionalmente?

RR: Existem os dois lados. Às vezes, existe um abuso tanto da parte do patrocinador quanto da parte do atleta. Às vezes um atleta acha que o patrocinador esta fazendo uma caridade e não é isso. Essa compreensão tem que existir. Claro que ainda temos muito a caminhar, existe um longo caminho para uma profissionalização maior dessa lógica do patrocínio… é preciso ter mais parâmetros. Existe muito dinheiro envolvido, mas isso por si só não vai acarretar em uma profissionalização sem que cada um saiba exatamente seu papel nesse sistema. Talvez falte um pouco de transparência em tudo isso e a falta de informação é um pouco danosa. Mas em geral, acho que o respeito acontece sim no país.

MO: Você se tornou o único nadador brasileiro a participar de cinco edições dos Jogos Olímpicos. Qual é o impulso que isso dá à carreira de um atleta? Pode também contar como é a experiência de participar dos jogos e se há muita diferença entre as edições?

RR: Entendo que a olimpíada é o ápice para os atletas na maior parte das modalidades esportivas. A própria participação já traz uma aura de vencedor, independente de medalhas e resultado, porque se trata de um evento que acontece a cada quatro anos. Há toda uma preparação e expectativa em torno disso. Não é algo corriqueiro. O atleta tem que estar bem na hora certa e no momento certo. Além disso, a experiência olímpica é fascinante e cada edição, cada sede, tem um fascínio diferente, uma particularidade própria do momento, da cidade, do país, do desempenho… tudo isso contribui muito para as lembranças. O atleta poder participar de uma olimpíada é muito bacana, mas ele tem que ter consciência do que é a cobrança. Cada um encara de uma maneira, mas é importante entender que o fato de não levar uma medalha não quer dizer que o atleta seja um perdedor. O atleta precisa entender essa filosofia. Do contrário, vai se desgastar muito. Tem que saber aproveitar o momento, mas sabendo qual é o objetivo, e treinar muito para participar da melhor forma possível e se preparar bem. Saber que o atleta deu o seu melhor e que o resultado foi justo proporciona um grande conforto e confiança. Vale à pena dar tudo de si, pois as olimpíadas representam a maior competição para um atleta

MO: Você também foi Campeão Pan-Americano em Havana 1991 e Santo Domingo 2003. Qual a importância dessas vitórias em sua carreira? E qual a maior diferença entre participar de uma olimpíada e vencer um Pan?

RR: O Pan para o Brasil é muito bom, pois consegue dar ao atleta a perspectiva de chegar entre os primeiros. Para a natação, são duas competições muito distintas. Nos jogos olímpicos existem mais de uma centena de países competindo e a disputa acaba sendo muito mais pulverizada, ao contrário do Pan, em que podemos ver algo muito canalizado, especialmente pelos americanos, que têm um potencial sempre muito grande. Além disso, atletas de outros países também treinam ou já treinaram nos Estados Unidos. Então, temos que ver esse cenário também, de supremacia americana. Mas dizer que ganhar o Pan-Americano é mais especial do que participar de uma olimpíada eu não posso. Diria que é diferente. A sensação de subir em um pódio e ouvir o Hino Nacional é sublime, não dá para falar que não, e não tive a oportunidade de sentir isso em uma olimpíada. Mesmo assim, pude vibrar muito quando outros brasileiros subiram do pódio. São, então, experiências bem diferentes, não tem como comparar. São muito distintas e muito especiais.

MO: A que você atribui ter conquistado tantas vitórias em sua carreira? Quem foi sua maior inspiração e incentivo?

RR: Fonte de incentivo sem dúvida foi minha mãe. A Dona Odete ia a todos os lugares. Sempre ali do meu lado, quando fui campeão Pan-Americano pela primeira vez e em todos os outros momentos, ela foi a grande incentivadora. Não só ela, mas toda a minha família. O núcleo familiar é muito importante na carreira de um atleta, a família é um porto seguro que está sempre apoiando independente do resultado. Para o atleta, ter esse apoio, principalmente nos momentos difíceis, é extremamente importante. E inspiração… foram diversas. Principalmente, a do grande nome da natação que foi o Ricardo Prado, nunca escondi de ninguém. Ele me mostrou que o empenho pode gerar resultados muito positivos. Pra mim, ele foi a referência no início. E além disso, me inspiro em todo e qualquer grande atleta que luta com talento e dignidade, pois cada um a sua maneira tem alguma coisa que o faz o melhor do mundo e buscar referências de atletas que têm atitudes certas é muito positivo. O Oscar (Schmidt), por exemplo, ficava depois dos treinos praticando seu lance livre e isso fazia a diferença. Busco sempre acompanhar isso tudo para me inspirar.

MO: Você foi 15 vezes campeão dos 200m costas no Troféu Brasil de Natação. Como você avalia o cenário brasileiro de competições de natação?

RR: Hoje, o cenário é fortíssimo. Fico impressionado com tantos nomes que estão surgindo das mais diversas regiões do Brasil e nos mais diversos estilos. São nadadores de alto nível como César Cielo e o Tiago Pereira, que estão entre os dez melhores das suas provas no ranking mundial. A natação brasileira tem evoluído muito. A competição esta muito forte e o nível esta se elevando muito. Mas, por outro lado, devemos salientar também que houve sim uma decadência dos clubes que investiam nesses atletas. Hoje, menos clubes disputam os campeonatos regionais, estaduais e até nacionais, essa é uma grande preocupação. Acredito que não há o interesse que havia anteriormente e, além disso, o esporte ficou muito caro. Nesse sentido, não vejo tanta sustentabilidade no cenário brasileiro. O poder público deveria sim dar um auxílio, mas isso tem que ser feito em conjunto com a família, com os próprios atletas e com toda a comunidade.

MO: Quais os objetivos que você traça no atual estágio da sua carreira? E quais são seus planos futuros?

RR: Um dos principais objetivos é tentar, dentro do contexto político, implementar algumas coisas que são muito importantes para o esporte, buscar meus objetos dentro de toda essa realidade política que nós conhecemos, na qual há muita restrição orçamentária, procurando sempre adequar essa realidade às necessidades. Mas o maior objetivo mesmo é continuar construindo minha família. Agora, com as minhas duas filhas, quero fazer uma família saudável que se respeite, incentivar o esporte e dar todo o apoio de que precisarem. Caso elas queiram fazer carreira na natação, ótimo, mas elas é que irão decidir o futuro. No fim, meu grande objetivo é ser feliz.

MO: Como você avalia o problema do doping nos esportes e que mensagem você deixaria para os jovens atletas?

RR: Doping é algo que vai estar sempre junto com as competições esportivas. Infelizmente, isso é uma guerra sem fim e o combate a isto precisa continuar, sem dúvida nenhuma.  A responsabilidade quanto ao doping deve ser não só do atleta, mas de toda a equipe. Ou seja, do treinador, do médico e de toda a equipe multidisciplinar que esteja envolvida com o desempenho do atleta. Esse cuidado deve ser tomado de forma mais responsável e cada vez mais veemente. Acredito que, quanto mais o atleta vai progredindo, mais neurótico, de certa forma, ele precisa ficar, pois o doping ronda e o atleta tem que estar sempre alerta para cuidar de sua saúde. E, claro, não vale à pena destruir tanto a saúde e a carreira, ter o nome exposto e ligado a algo tão ruim por conta de uma glória momentânea.

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Finais terceiro dia

Uma prova que teve campeão Mark Spitz, Michael Gross, Hoogenband, Thorpe e Phelps, para ficar nos mais recentes, cria naturalmente uma expectativa enorme. Assim é os 200m livre e continuou sua saga em Londres.

Agnel: seu nome com os grandes.

Os protagonistas: um americano querendo fazer história (Lochte), um francês inesperado (Agnel) e um chinês que pode sair com 3 ouro (Yang). Mais tempero com o alemão recordista mundial (Biedermann) e com o prata em Pequim, o coreano Park.

Parece que a presença do Holande fez a diferença, e Agnel foi absoluto na prova, chegando próximo do recorde olímpico de Phelps. Agora, seu técnico, que treina Muffat também, já está com 3 ouros. O oriente, com Park e Yang, completaram o pódio, deixando Lochte de fora…

Missy: duas medalhas até o momento. (Yahoo)

Ser a Phelps de maiô. Quem vai ser? Coughlin e sua versatilidade poderia pleitear. Coventry, em sua quarta olimpíada tem a dificuldade de ser a única representante de peso de seu país. Mas a sorridente Missy Franklin participa e tem chance de ganhar inúmeras medalhas nos revezamentos americanos.

E Franklin melhorou quando necessário. Ao nadar quase meio segundo mais rápido que sua melhor marca, ela colocou a então favorita Seebohm em prantos. Detalhe, Missy nadou após uma semi nos 200m livre onde se classificou em oitava.

A queridinha do publico, recordista mundial da prova, Gemma Spofforth, acabou em quinto.

Grevers e Thoman: 12 medalhas dão a liderança folgada para os americanos. (Reuters)

A versão masculina, com os grandões Grevers e Lacourt (2,04 e 2,00m, respectivamente) foi, até os 80m, parecendo que ia dar os dois mesmo, mas o francês, talvez animado com a vitória do seu compatriota, passou forte e ficou em quarto. O queridinho do público, ex-recordista mundial dos 50m, Liam Tancock até que tentou com sua velocidade característica, mas terminou em quinto.

Melhor para Grevers, em recorde olímpico, Nick Thoman, também americano na primeira dobradinha da competição e o japonês Irie.

Ruta: na rota da vitória inédita. (AFP)

Na última final do dia, Leisel Jones entrou para fazer história. Novamente. Primeira na natação australiana a participar pela quarta vez, Jones teve críticas pesadas sobre o seu peso (com o perdão do trocadilho). Acabou em quinta.

Ah, sim, a vencedora acabou sendo a lituana Ruta Meilutyte, com o ouro inédito para a Lituânia, segurou bem a recordista mundial Soni, com o bronze para o Japão de Suzuki.

Joanna Maranhão piorou um pouco seu tempo da manhã e ficou fora da final.


Este texto foi originalmente publicado no site do iG (colunistas.ig.com.br/rogerioromero