Vamos pegar uma carona nessa canoa

Publicado em 16/08/16, aqui

Nenhum outro esporte deve deixar um legado maior para Minas Gerais do que a canoagem de velocidade. Sede de treinamentos dos times do Brasil e da Grã-Bretanha, o Estado tem tudo para virar um polo de alto rendimento da modalidade. Casa de Isaquias Queiroz – o brasileiro favorito ao ouro olímpico hoje, na categoria C1 de 1.000 m –, Lagoa Santa foi o QG dos canoístas do país e seguirá emprestando suas águas, pelo menos, até o fim deste ano.

Ontem, no Rio de Janeiro, a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) confirmou o interesse na sequência do trabalho em terras mineiras. Inclusive, conversas já foram abertas com a prefeitura da cidade e com o Comitê Olímpico Brasileiro para renovar a parceria.

“Em Lagoa Santa, tivemos a tranquilidade, não tinha trânsito, a cidade era bastante calma. Qualquer coisa que precisava, a prefeitura ajudava, a Polícia Militar também. A gente treina dentro do quartel, que nos dá mais segurança para o nosso material. Depois dos Jogos Olímpicos, vamos entrar de férias e, depois, voltar para Lagoa Santa com certeza. Vamos continuar lá”, adiantou Isaquias, ontem, logo depois de vencer a bateria e garantir vaga na disputa por medalhas, hoje, às 9h.

Lagoa Santa foi escolhida como local de treinamento por causa das condições climáticas. A diferença é entre a água salgada, no caso do cartão-postal carioca, e a doce, no caso da paisagem mineira. “Lagoa Santa ajudou bastante por causa do vento e por causa do clima, que também era muito quente lá. Estávamos bem-adaptados para vir para cá”, explicou.

A canoagem de velocidade também é um dos esportes que podem deixar um legado para o Minas Tênis Clube. O Minas Náutico, na lagoa dos Ingleses, em Nova Lima, tem recebido investimentos e virou espaço para treinos dos ingleses antes de eles seguirem para o Rio.

“É uma cidade amável. Eu tive muitos bons treinos lá, com muito sol. É um bom lugar para performance de alto rendimento. Poderia ser mais usado pelos brasileiros”, destacou a canoísta Jess Walker, que não conseguiu a vaga na final do K1 de 200 m, ontem.

Gerente de esportes do Minas, Rogério Romero explica que o investimento no esporte depende da diretoria. “É um esporte que poderia vir a ter um investimento. É uma decisão que vem de uma diretriz. Se ele é um esporte que casa com a cultura do associado, será desenvolvido. Depois, vamos fazer um balanço dessas situações”, afirmou.

Lagoa Santa: a casa do Brasil

Desde o fim de 2014, a cidade de Lagoa Santa recebe os atletas da Confederação Brasileira de Canogem (CBCa) para os treinamentos da modalidade. Quando o treinador espanhol Jesus Morlán passou a trabalhar na equipe, em março de 2013, São Paulo havia sido a escolhida para receber os treinos do grupo. Ainda que os bons resultados tenham passado a aparecer com maior frequência, Morlán procurava uma cidade mais tranquila para a preparação dos brasileiros visando aos Jogos Olímpicos e aos Mundiais que antecediam as Olimpíadas. E foi isso que ele encontrou em Lagoa Santa. A equipe conta com uma lagoa de 6,3 km exclusiva para o treinamento, além de moradia e serviços como fisioterapia e ciências do esporte. “Pela condição do vento, características da lagoa e qualidade de vida na cidade, além de uma série de requisitos que avaliamos, como a proximidade do aeroporto de Confins, Lagoa Santa se tornou um centro muito interessante para a preparação da equipe brasileira”, comentou, à época, o superintendente geral do COB, Marcus Vinicius Freire.

Minas Náutico: sede dos britânicos

Há três anos, o Minas Tênis Clube e a British Olympic Association (Comitê Olímpico Britânico) assinaram um acordo, chamado de “protocolo de intenções”, que previa a utilização da estrutura do clube pelos atletas da Grã-Bretanha, visando à preparação para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Entre as nove modalidades que optaram por se preparar em Belo Horizonte, a canoagem esteve inclusa e trouxe grandes atletas para a reta final da preparação no Minas Náutico, na lagoa dos Ingleses, em Nova Lima. Nomes como o campeão olímpico Edward Mckeever e os medalhistas de bronze Liam Heath e Jonathan Schofield, os três em Londres 2012, participaram de períodos de treinamento no clube. “Temos uma infraestrutura de Primeiro Mundo, de nível olímpico, dentro e fora da água”, comentou Schofield. Além da infraestrutura, outros fatores ainda colaboraram para a escolha dos britânicos. “Precisamos de um lugar perto dos Jogos. Aqui (Minas Náutico) é o local ideal para o treino. Você tem uma boa lagoa, com uma água limpa e muito boa. E são apenas 45 minutos de viagem de avião para o Rio de Janeiro”, avaliou Mckeever.

Raio X do menino prodígio do Brasil

Cinco curiosidades sobre Isaquias Queiroz, 22

1 – Infância dura, mas boa

Isaquias Queiroz tem cinco irmãos biológicos e quatro adotados. E eram eles que ficavam cuidando do garoto na pequena e humilde casa de três cômodos em Ubaitaba, interior da Bahia. A mãe, Dona Dilma, era servente na rodoviária da cidade baiana, mas nunca deixava faltar nada.

2 – Queimadura no corpo

Aos 3 anos de idade, Isaquias sentiu dores fortes na barriga. Sua “cuidadora”, que tinha poucos anos a mais, foi colocar água para fazer um chá. O menino esbarrou nela, e a panela virou, queimando grande parte de seu corpo. Após um mês internado, a mãe de Isaquias tentou tirá-lo do hospital e ouviu do médico que ele iria morrer em casa. Ela assinou um termo de responsabilidade e o levou de volta.

3 – Acidente e perda do rim

Isaquias colecionava torções nos braços e nas pernas enquanto ia crescendo. Com 10 anos, sofreu um acidente grave. Ao tentar subir em uma mangueira para ver uma cobra morta que estava pendurada em seu galho, ele se desequilibrou e caiu feio em cima de uma pedra, onde ficou desmaiado. Teve hemorragia interna e perdeu um de seus rins. Mas, de novo, o guerreiro se safou. Ah, claro, ele ganhou o apelido de “Sem Rim” e, por ter apenas um, até hoje precisa ingerir mais água que seus colegas.

4 – R$ 50 de patrocínio

Muito antes de se tornar bicampeão do mundo e um atleta olímpico, Isaquias precisou se dividir entre as competições de canoagem e o trabalho na feira de Ubaitaba. Para ajudar a mãe a sustentar os nove irmãos, transportava compras em um carrinho de mão às sextas-feiras e aos sábados. Ganhava R$ 1 ou R$ 2 pela ‘viagem’, quando já era campeão sul-americano. Ele só parou quando Jefferson Lacerda, pioneiro da canoagem, membro da primeira equipe olímpica do Brasil nessa modalidade em Barcelona 1992, se juntou a um colega para “patrocinar” Isaquias. O atleta, que pedia roupas emprestadas para poder competir, recebia R$ 50 mensais.

5 – Vaidoso e fã de arrocha

Geralmente, em sua folga, Isaquias sai de Lagoa Santa e volta a sua cidade natal, que, carinhosamente, chama de “Dubai City da Bahia”. Ubaitaba virou ponto de encontro dos amantes do arrocha, paixão de Isaquias, que gosta do cantor Binho Alves, seu conterrâneo, que canta arrocha romântico; ele também tem escutado muito Tinno Flow e Léo Santana.

Plano é se tornar referência

A cidade de Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, quer se tornar referência para a canoagem de velocidade no Brasil. A pretensão do município é renovar o contrato para os treinos continuarem no ano que vem.

“Temos total interesse em continuar com a equipe brasileira aqui e investir cada vez mais nesse esporte. Vou fazer de tudo para que a equipe continue aqui por mais um ciclo olímpico”, afirmou o prefeito de Lagoa Santa, Fernando Pereira Gomes Neto (PSB).

“A ideia é, inclusive, fazer boas instalações para a equipe do Brasil aqui na cidade e estimular esse esporte olímpico em Lagoa Santa. Vamos criar escolas para incentivar as crianças e os jovens de Lagoa Santa e de cidades próximas a se inserirem na canoagem desde cedo e se tornarem também atletas brasileiros no futuro”, explicou o prefeito.

Segundo ele, como a cidade fica a apenas sete quilômetros do aeroporto de Confins, também na região metropolitana, há facilidade para os deslocamentos dos atletas para visitas familiares e viagens esportivas.

O prefeito ressalta ainda que um projeto de lei já está sendo escrito e será encaminhado, nos próximos dias, ao Legislativo para incluir a canoagem no plano de governo para o ano que vem. “Temos recursos suficientes para investir nesse esporte na cidade, e esse dinheiro vai ser muito pouco perto da visibilidade que vamos ganhar com a equipe brasileira treinando aqui e tendo o município como referência”, avalia. (Natália Oliveira)

 

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