O dia em que envelheci

Publicado em 25/01/14, aqui

Vicente Cardoso Júnior
Aos 50 e poucos anos, Elke Maravilha, hoje com 68, decidiu que não usaria mais shorts. Amigos estranharam: “Mas suas pernas estão ótimas”. Ela retrucava: “Pelas pernas eu posso, pela alma é que não quero”. Sem uma razão muito clara, ela apenas sentiu que era hora para essa mudança. Envelhecer é um processo constante e sutil, tão natural que não é sentido a todo instante, mas há momentos em que a percepção dessa passagem do tempo é repentina. Para Elke, nada digno de lamentação; ao contrário, ela fala com humor sobre o assunto: “Hoje tenho um saco cheio de remédios para tomar, e meu médico avisou: ‘Cuidado que sua vida está aí’, então minha vida foi pro saco!”, e uma gargalhada se segue.
Perceber que não se é mais (tão) jovem e lidar com isso de forma positiva, encarando os contras e, principalmente, tirando proveito dos prós da maturidade é um grande passo num país cuja população está vivendo cada vez mais. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada recentemente, a expectativa de vida do brasileiro hoje é de 74,6 anos – um acréscimo de cinco meses e 12 dias em relação ao valor estimado para 2011 (74,1 anos).
Segundo o psicólogo José Carlos Ferrigno, autor de “Conflito e Cooperação entre Gerações” (ed. Sesc SP, 232 págs., R$ 25), a percepção do envelhecimento geralmente é despertada por um fator externo. Ferrigno remonta ao relato de um escritor que, estando em pé no metrô, percebeu que uma jovem o olhava com insistência. Sentia-se lisonjeado, por se ver atraente para uma mulher tão mais jovem, até que ela se dirige a ele e lhe oferece o lugar para sentar. “Muitas vezes a velhice vem assim, informada pelo outro”, afirma o psicólogo.
Uma das explicações possíveis, segundo o psicólogo, é que nosso inconsciente não tem idade. Sem passado ou futuro, essa instância do indivíduo vive sempre numa espécie de mesmo presente. “Como esse inconsciente é muito poderoso para determinar nosso comportamento, isso contribui para que a gente, por dentro, se sinta sempre o mesmo”, explica.
Há também a influência da imagem que cada um faz de si. Pessoas mais ativas costumam se identificar com uma imagem de juventude. Já pessoas com tendência depressiva são mais afetadas pela sensação da velhice, pois a ideia de finitude da vida as alarma. O geriatra Telmo Diniz, colunista do Pampulha, relata casos em que pacientes idosos ainda ativos no mercado de trabalho estranham suas fotografias recentes. “Eles dizem: ‘De jeito nenhum, não estou velho desse jeito’. A cara com rugas, o cabelo totalmente branco, a visão que se tem disso infelizmente é negativa”, afirma Telmo.
Natural
Elke reconhece as mudanças trazidas pela idade, mas as encara como algo natural e que não deve ser sofrido. Uma dessas situações foi o fim do ciclo menstrual. “A vida toda a gente é escrava de hormônios e do desejo sexual. Quando isso acaba, é uma libertação”, afirma a artista, que na época recusou a sugestão do médico de que realizasse reposição hormonal. “A natureza é tão sábia que sempre nos dá coisas novas, e a gente não precisa ficar vivendo as mesmas emoções. Imagina se a gente vivesse sempre nos 20 anos, que coisa horrorosa!”
Quem trabalha com a própria imagem, como é o caso da cantora Marina Machado, costuma ter um vasto registro da passagem do tempo. “Me olho nas fotos de agora e percebo que estou com mais rugas, isso incomoda”, afirma. Porém, Marina sabe que não é só isso que provém da experiência de envelhecer. “Tem também coisas boas: hoje sou mais tolerante, menos ansiosa com os resultados e também mais pontual, o que acho uma grande qualidade”, reflete.
A associação do envelhecimento às noções de decadência e fim incomoda a cartunista Laerte Coutinho. Ela, que passou a viver publicamente sua transgeneridade nos últimos anos, entende a idade de forma similar à questão de gênero, como construção cultural. “A posição do idoso é construída de forma negativa na nossa sociedade, e não tem nada de legal, traz uma característica cruel e doentia, de considerar o idoso como fonte de problemas”, declara. Negando esse estigma da velhice, Laerte prefere falar em amadurecimento. “Nesse sentido, acho que nunca me senti velha. Me senti madura, no sentido de tomar conta da minha vida, de uma autonomia, quando comecei a me compreender também como transgênero, como mulher”, afirma.
Uma vez em que tomou chá de ayahuasca (bebida utilizada em rituais religiosos de origem amazônica), Laerte teve uma reflexão que identifica como momento marcante de percepção do envelhecimento – no sentido positivo de aquisição de maturidade. “Me vi como uma árvore em certa fase da vida capaz de gerar determinados frutos. Percebi que se tratava de uma metáfora, e passei a ver os desenhistas e artistas mais novos como pessoas a quem eu teria algo que dar”, relata.
pampulha
Começar de novo
“Só o jogador de futebol morre duas vezes, a primeira quando encerra a carreira.” A frase do ex-volante da seleção e comentarista Paulo Roberto Falcão descreve bem o momento crítico de fim da vida profissional de atletas, o que, em diferentes medidas, não se aplica só ao futebol ou ao universo esportivo. O fim de uma carreira traz dúvidas, mas também novas possibilidades, até a de se reinventar.
O ex-nadador Rogério Romero, 43, já pensava em encerrar a carreira esportiva aos 23 anos, logo após disputar as Olimpíadas de Barcelona, em 1992. A mudança de cenário no esporte, com maior apoio, o fez mudar de ideia, e Rogério ainda disputou mais três Olimpíadas, deixando a natação de vez apenas em 2004. “Foi justamente aí que tive aquele alerta de que uma fase da vida estava acabando”, relata Rogério, que na época tinha 35.
Num período de dois anos, o casamento, o nascimento da filha e o convite para integrar uma equipe do governo estadual – Romero é secretário-adjunto de turismo e esportes de Minas – tiraram o peso da ‘morte’ daquela primeira vida, a do atleta. “Esse momento tão efervescente ajudou a ser menos traumático. Além disso, eu tinha interrompido minha formação educacional, e decidi correr atrás disso, o que também ajudou a começar de vez esse novo ciclo”, afirma Rogério.
Em coluna para o jornal O TEMPO, o ex-jogador Tostão fala sobre a dificuldade de muitos atletas se libertarem do passado. “Ex-atletas que trabalham em outras atividades, principalmente os que foram craques, geralmente não conseguem criar uma nova identidade profissional nem se libertar das glórias e dos fantasmas do passado. Continuam enamorados por suas imagens anteriores.”
Não é o caso de Rogério. Segundo ele, o ex-nadador e o político convivem bem. “O esporte ensina muito sobre dedicação, aceitação de derrotas, a importância de uma equipe. São valores que podem ajudar na transição para uma nova etapa e que, sem dúvida, continuam válidos para outras situações da vida”, ressalta.
Ciclos
O crescimento da expectativa de vida em todo o mundo e a universalização da previdência fizeram com que a ‘primeira morte’ de que Falcão fala também seja sentida, um pouquinho mais tarde por todo mundo que chega ao momento de se aposentar.
Após 30 anos de carreira na mesma empresa, a advogada Maria Aparecida Araújo, 52, até evita o termo ‘aposentar’. “Eu posso encerrar meu ciclo em uma empresa, o que não quer dizer que vou deixar de sempre fazer alguma coisa. Posso até aposentar legalmente, mas não quero parar nunca”, afirma.
A ideia de ‘ciclos da vida’ é valiosa para ela. Outra fase que ela vê concluindo está relacionada a suas responsabilidades como mãe. “Tenho um filho no mestrado e outra que estuda medicina. Sei que eles estão encaminhados e agora quero deixar um pouco de ser mãe e voltar a ser eu mesma”, afirma Maria Aparecida.
Entender e satisfazer esse “eu mesmo” parece tão complicado que a única resposta possível até soa simples demais: fazer aquilo de que se gosta. Uma das principais motivações para Maria Aparecida ter decidido se aposentar num momento considerado muito cedo pela maioria dos colegas é a liberdade para organizar seu tempo. “Vou continuar trabalhando, ainda não sei onde ou com o quê, mas sinto que vai ser tão bom fazer as coisas na minha vontade, no meu horário”, diz.
Assimilar e adaptar-se a uma temporalidade nova é uma das transições importantes com o envelhecimento. “Em função de características biológicas e sociais, a percepção do tempo muda de uma fase da vida para a outra”, afirma o psicólogo José Carlos Ferrigno. “A criança vive muito o presente, tem um tempo voltado para a brincadeira, o que o adulto não consegue tanto. Na terceira idade, é possível recuperar esse tempo recreativo”, completa.
Para Ferrigno, a integração entre gerações é uma das chaves para um envelhecimento mais completo. “As gerações mais velhas também podem se adaptar ao tempo acelerado dos jovens. Em vez de viver no saudosismo, há um mundo a ser descoberto”, afirma.
Nossa ideia de tempo cronológico, que marca o passar dos anos e, assim, a idade, vem do grego antigo Chronos – que era o deus do tempo e das estações. Essa mesma civilização tinha ainda a divindade Kairós, representante de um tempo oportuno, sem amarras ao passado. A advogada Maria Aparecida Araújo parece ser mais devota do segundo: “Só vou envelhecer no dia em que eu não quiser fazer mais nada, e eu sempre quero fazer alguma coisa!”
Filmes que abordam a percepção do envelhecimento
“O Curioso Caso de Benjamim Button” (2008)
Button (Brad Pitt) nasce bebê num corpo velho e rejuvenesce com o passar dos anos. A história provoca a reflexão sobre como o envelhecimento não está preso apenas ao corpo. A percepção da velhice física afeta o relacionamento de Button com Daisy (Cate Blanchett), que tem um ciclo biológico normal. Ora ele, ora a amada se sentem velhos demais para o outro.
“Up – Altas Aventuras” (2009)
Aos 78 anos, o rabugento Carl transforma a casa num dirigível para perseguir um sonho infantil, abalando a vida isolada pela qual havia optado na velhice. O prólogo da animação narra a passagem da vida de Carl ao lado da esposa, num belo retrato do envelhecimento de um casal, tecido por acontecimentos marcantes no pano de uma rotina singela.
“O Artista” (2011)
A chegada do som à sétima arte coloca a estrela do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin) em crise, ao perceber que seu talento talvez tenha ficado ultrapassado. A obra mostra a sensação de envelhecimento atrelada à profissão e ao contexto de mudanças sociais. Em vez do isolamento e da aceitação de sua derrocada, Valentin resolve se adaptar e se reinventa.

 

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