“A FINA, como confederação internacional, é política sim, e está suscetível à opinião de atletas internacionais renomados em suas decisões”.

Publicado em 20/07/2011, aqui

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“A FINA, como confederação internacional, é política sim, e está suscetível à opinião de atletas internacionais renomados em suas decisões”.

Rogério Romero, ex-atleta de peso da natação brasileira, e atual secretário adjunto de esportes de Minas Gerais, comenta a pressão de nomes internacionais para forçar decisões com relação à punição de Cielo e dos atletas brasileiros Nicholas Santos, Henrique Barbosa e Vinícius Waked.

Rosaly Bastos, entrevista exclusiva

César Cielo se move rapidamente na piscina, mas, no momento, sofre uma tempestade internacional. A acusação de dopping por Furosemida,anunciada há poucos dias, põe em cheque não só um grande nome da natação, mas todo seu compromisso e carreira no esporte, bem como a trajetória bem-sucedida dos outros 3 atletas envolvidos no caso – Nicholas Santos, Henrique Barbosa e Vinícius Waked. Ingestão acidental e uma brecha aberta para uma possível contaminação pela substância proibida, sinalizada pela farmácia responsável pela manipulação dos suplementos para o atleta. Waked é considerado reincidente, devido à acusação de dopping em 2010, que ele deveu a um medicamento para dor de cabeça.

Forte por impacto, a palavra “dopping” gera reações de tamanhos desproporcionais, e colocou Cielo e seus companheiros no olho do furacão. Antes, venerado pela opinião pública e pela mídia, da noite para o dia Cielo passou a ser visto como culpado, metralhado por opiniões das mais diversas, negativas, em sua maioria, sem que se fizesse a correta separação entre ingestão acidental, proposital, ou por negligência. Reação rápida do público, e mais rápida ainda grande parte de nadadores, profissionais ou amadores, usando a palavra dopping com sentido de punição pesada.

Às vésperas do Mundial de Esportes Aquáticos de Xangai, a FINA, Federação Internacional de Natação, alegando neutralidade, passou o caso para o TAS, tribunal supremo que decidirá o caso, mas já com um pré-julgamento adiantado: pediu punição para os atletas, e, não só uma concordância com a advertência da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), que chegou a ser criticada como passiva e conivente em relação ao assunto.

Rogério Romero, ex-atleta e nome forte da história da natação brasileira, presença marcante em vários jogos olímpicos, hoje secretário adjunto de esportes de Minas Gerais, conhece bem de perto todas as provações passadas pelos integrantes do esporte.

Com experiência de medalhista reconhecido, ele critica a posição da FINA com um pré-julgamento adiantado mencionando culpabilidade sem se ater a determinadas regras, e afirma que não há total imparcialidade no caso do julgamento de atletas de renome como César Cielo. “A FINA, como organismo internacional, é órgão político sim, e sofre pressões de grandes atletas de nomes internacionais, quanto às decisões tomadas. Uma palavra ou reclamação de alguém com a força de Michael Phelps, Alain Bernard, por exemplo, vão, sim, ter grande voz na opinião da FINA sobre o caso.”

Na época da indecisão sobre o fim dos maiôs tecnológicos, a mídia internacional veiculou a notícia de que Phelps bateu o pé e disse que não competiria mais se os trajes não fossem abolidos. Ele estava treinando com um traje de outra marca patrocinadora, e sentindo-se desfavorecido por usar modelo de tecnologia inferior ao de alguns maiôs da marca Arena, por exemplo, marca usada por atletas como Cielo,  na época (a Arena patrocina o brasileiro), resolveu aumentar o tom de voz. Logo em seguida, decisão do fim dos maiôs foi acatada pela FINA.
Romero reconhece que o tribunal responsável pelo julgamento, o TAS, assume casos para agir com maior neutralidade, mas que uma palavra de um nadador internacional indignado, por exemplo, chega com grande impacto às vontades da FINA que, por sua vez, transmite a pressão.

“Existem regras para cada tipo de caso. Um atleta que faz ingestão proposital, tem que saber que aquilo não está certo, e precisa ser punido. Mas é preciso avaliar cada caso, de acordo com as regras que esses organismos mesmos estabeleceram, e, não, passar por cima delas”, para dar uma resposta forte e de autoridade, ou reflexo de pressões externas de grandes nomes que querem punições, talvez movidos por ciúmes, como ele ressalta que sempre existiu e sempre vai existir no meio. “Ingestão acidental deve ser encarada como acidental e julgada como tal, assim como as de negligência, como negligência”, completa.

Para ele, grandes nomes não devem ser isentos de responsabilidade, mas ressalta que o caso de Cielo é atípico e deve ser tratado como atípico. No seu ponto de vista, não foi negligência, nem parece ser proposital, e, se o nadador apresentou provas de que comprava suplementos manipulados há anos da mesma farmácia, e o dr. Eduardo de Rose, autoridade respeitada, emitiu um boletim com argumentos sólidos, a posição dele deve ser tratada com respeito. O que está previsto pelas próprias regras da FINA. “Eles (FINA, TAS) precisam analisar de acordo com as regras diferenciadas que eles mesmos criaram, respeitar o que eles mesmos estabeleceram, para tratar cada caso com distinção, e, não, a partir da explosão do nome forte de dopping, generalizando”, alfineta.

“Como César Cielo virou um ícone, chegou no topo, todos querem ganhar dele. Ele virou uma vidraça, e isso atrai tanto elogios, quanto ciúmes. Ciúmes entre atletas (ri), claro, sempre existiu. Ele deve estar preparado para tudo isso, para as pressões, e também para quem duvida”, arremata.

A FINA foi procurada mas não atendeu à reportagem até o fechamento desta matéria. O TAS emitiu nota dizendo que não vai se pronunciar a respeito do caso, até decisão final, que se dará até o dia 24 deste mês.
Tribunal e federação, vulneráveis ou não, muito vai poder se dizer sobre a decisão final do TAS, e das pressões que a FINA sofre e respeita, em relação a gritos de nomes fortes, desafetos, parcialidades ou isenção e confiabilidade em julgamentos de casos tão delicados no esporte mundial. (Rosaly Bastos – Brazil Special Report)(Foto: Divulgação/Secretaria de Esportes de Minas Gerais)

READ IN ENGLISH:

“FINA, the international swimming confederation, as it is rather political, and is susceptible to the opinions of renowned international athletes in their decisions.” Interview with former brazilian swimmer Rogerio Romero, on the trial of the case of doping of Cesar Cielo and three other brazilian swimmers.

Rogerio Romero, current Assistant Secretary of Sports of  the state of Minas Gerais, in Brazil, speaks about the pressure of  sports international names to push decisions regarding the punishment of Cesar Cielo plus Nicholas Santos, Henrique Barbosa and Vinicius Waked, about their dopping issue, and discuss FINA’s and CAS partiality or impartiality.

Rosaly Bastos, exclusive interview

Cesar Cielo moves quickly in the pool, but at present, suffers an international storm. The accusation of doping by furosemide, announced a few days ago, puts into question not only a big name in swimming, but all their commitment and career in the sport, as well as the successful trajectory of other three athletes involved in the case – Nicholas Santos Henrique Barbosa and Vinicius Waked. Accidental ingestion and a loophole open for possible contamination by a prohibited substance, signaled by the pharmacy responsible for the manipulation of supplements for the athletes. Waked is considered a repeat offender on charges of doping in 2010, he was due to a medication for headaches, and he will be judge probably in a different way of the other 3, according to FINA´s rules for dopping issues.

Strong impact of the word “doping” generates explosive reactions, and it puts Cielo and his companions in the eye of the hurricane, not only by media, but also by public judgments and by other athletes, swimmers or not. Before, revered by the public and the media, the overnight Cielo was seen as guilty, strafed by a variety of opinions, negative, mostly to be done without the proper separation of accidental ingestion, deliberate, or negligence. Fast reaction of the public, and still much faster from swimmers, professional or amateur, using the word doping with a sense of punishment.

On the eve of World Aquatics Sports in Shanghai, FINA (starting on july 24th, the swimming competitions), the International Swimming Federation, claiming neutrality, has passed the case to TAS, the supreme court that will judge Cielo´s dopping issue, but it was followed already with a FINA´s pre-trial early: FINA has asked for a heavier punishment for the 4 athletes, contrary to the warning given by the CBDA (Brazilian Aquatics Sports Confederation), which only annulled the results obtained by the athletes at the Maria Lenk Trophy in May, which came to be criticized as passive and complicit in the matter.
Rogerio Romero, a former athlete and strong name in the brazilian swimming history, strong presence in several Olympic Games, now Assistant Secretary of Sports of the state of Minas Gerais, knows very closely all the trials passed by the members of the sport.

With recognized experience, he criticizes the position of FINA with an early pre-trial guilty without mentioning adhere to certain rules, and says there is no impartiality at all in the case of the trial of prominent athletes as Cesar Cielo. “FINA, as an international organization, political body, is, yes, under pressure from international big athletes names in issues like this, speaking about the decisions taken. A word or complaint from someone with the strength of Michael Phelps name, or Alain Bernard, for example, will have a louder voice in FINA´s opinions, that will be certainly be heard with a strong ears when it gets to CAS”, says Romero.

At the time of indecision on the technological end of the swimsuits, the international media published the news that Phelps has made many demands, and said he would not compete anymore if the tech costumes were not abolished. He was training with a suit from other brand sponsor, and feeling disadvantaged by using inferior technology to model like some swimwear made by brand Arena, for example, brand that was using better technologies than his swimsuits, as the ones used by athletes such as Cielo, at the time (the Arena sponsors the Brazilian). So, unsatisfied, Phelps has decided to increase the tone of his voice. Soon after, the end of swimsuits decision was accepted by FINA.

Romero recognizes that the court responsible for the trial, CAS-TAS, takes cases to act with greater neutrality, but a word of an outraged international swimmer, for example, and other strong external voices and opinions in sports world (or others that these organizations know well) comes with great impact to the will of FINA, which in turn transmits the pressure.

“There are rules for each type of case. A player who makes deliberate ingestion, must know that it is not right and must be punished. But we must evaluate each case according to the rules that agencies have set up, and do not go over them, to give a strong response showing a kind of authority, or reflection of external pressures of big names who want punishment”, perhaps driven by jealousy, as he points out that always was and always will exist in the middle. “Accidental ingestion should be regarded as accidental and judged as such, as well as neglect, as neglect,” he added.

For him, big names in sports should not be exempted from responsibility, but emphasizes that the case of Cielo is atypical and should be treated as unusual. In his view, Cielo was not negligent, nor seems to be purposeful, and if the swimmer presented evidence that the supplements he bought handled the same pharmacy for years, and dr. Eduardo de Rose, respected authority working for the dopping analysis in Brazil, issued a bulletin with solid arguments, his position should be treated with respect. What is referred to by their own rules of FINA. “They (FINA, TAS) need to analyze according to different rules of their own making, respect what they have set up to treat each case with distinction, and not from the explosion of the strong name of doping, generalizing”, he emphasizes.

“As Cesar Cielo has become an icon, reached the top, everyone wants to beat him. He turned himself into a window, and it draws both praise, and jealousy. Jealousy among athletes (laughes), of course, exists and always existed. He must be prepared for all this kind of pressures, and also for those who have doubts”, he concludes.

TAS has issued a statement saying they will not speak about the case until their final decision, which will take place until the 24th of this month.
Court and federation, vulnerable or not, much will be able to say about the final decision of the CAS-TAS, and the pressures that FINA suffers and respects, in relation to cries of strong international athletes’ names, not amicable relations, jealously, or impartiality and reliability of judgments in such delicate cases like this in the world of sports. (Rosaly Bastos – Brazil Special Report) (Photo: Sports Secretariat of Minas Gerais)

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